InforCEF - jornal escolar do Centro de Estudos de Fátima -
nº 39, Dezembro de 2003
um
O
meu pai é
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e, de repente, um adolescente te diz: «o meu pai é um cota galinha, que se preocupa demasiado comigo e com o que me pode acontecer, enquanto a minha mãe é uma cota p´ra frentex, que gosta de se divertir e de curtir com os jovens», o que te apetece fazer? Estrangular? Achas graça? Não estás nem aí? Partes-lhe os dentes? Achas que é um gajo porreiraço? Pedes calma? Ou pensas, se és pai, que merece ser repreendido por desrespeitar as galinhas? Se és mãe sentes-te elogiada? ridícula? ou nem uma coisa nem outra?Acompanhar a pedalada deles, em termos de noitadas e saídas, nem sempre é fácil - nem concordas muito com isso - pelo menos em tamanha quantidade. Já esqueceste provavelmente o que sentias na idade deles e a forma como procuravas contornar os obstáculos que a família preocupada te colocava na frente.
Hoje, os tempos são iguais aos de outras épocas. Só mudou, verdadeiramente, a oferta e a forma de a valorizar... se galinhas há, galinhas já havia e sempre houve; se p´rá frentex há p´rá frentex já havia. Eram menos? É provável! Nesses tempos de menos é natural que muita coisa existisse em menos, porém os sonhos, a vontade de saber e as lutas por causas nobres eram em muito maior número.
Acontece que, nestes tempos de «vil tristeza», nos encontramos confusos sobre o que queremos verdadeiramente para os nossos filhos e alunos. Se, por um lado, queremos sempre o seu melhor - dizemos - por outro confundimos o melhor com os sonhos por nós falhados, tanto em termos profissionais como relacionais.
Éramos mais ricos e também mais pobres. Só que a nossa pobreza é hoje encoberta pela riqueza deles e a nossa riqueza é hoje uma verdadeira seca. São tempos de desafio, tempos que pedem luta e coragem, tempos que pedem tolerância e firmeza. tempos que apelam ao relativismo acerca de tudo... tempos sem deus, sem roque e sem memória, tempos de teres e de haveres e de pouco ser, tempos de imediatismos e velocidades, mas de pouca criatividade e imaginação. Enfim, tempos de muito mesmismo e repetição. Tempos de pouco amor e muito sexo, de muitos líquidos e pouca água, de muita noite e pouco dia, de muitos veres e poucos pensares, de muitos doutores e poucos mestres.
Tempos de muito poucos tempos, mas de muitas monotonias; tempos de muitos problemas, mas também de muitas soluções; tempos de muitos amores e de mais desamores.
São estes os que nos cabe viver. São os melhores e os piores, porque não temos outros nem conhecemos verdadeiramente outros... são os nossos tempos. Tempos que nos pedem clareza, coerência, paixão e paciência... e sobretudo amor e misericórdia.
jesus amaro