InforCEF - jornal escolar do Centro de Estudos de Fátima - nº 39, Dezembro de 2003
Todos precisamos de
amparoUm dia destes, igual a tantos outros marcados pelo toque da campainha, quando procurava a minha correspondência no cacifo, fui surpreendida por um envelope que dizia simplesmente Inforcef. Depois de ler o texto, percebi que este era escrito provavelmente por uma professora que procurava desabafar e partilhar sentimentos comuns vividos muitas vezes pelo envolvimento que temos com os nossos alunos. Dentro deles, como alguém dizia, moram pessoas, pessoas frágeis, em construção e não moram só conhecimentos ou saber. Neste texto, revi sentimentos que vivo perante alunos que desempenham, muitas vezes, provas de avaliação sujeitos à gestão das mais difíceis emoções e sentimentos. No meio da confusão, eles têm que mostrar o que valem e o que sabem, para nós expressarmos em números. Se não atingem os objectivos mínimos propostos é porque precisam de trabalhar mais, de estar mais atentos na aula, de participar mais...
Às Amparos (e a eles) só falta muitas vezes quem os possa escutar, dar um sorriso ou cinco minutos entre um toque de campainha.
Cristina Carvalho
Rotinas
São 6h da manhã. Finalmente, o Pato Donald, vestido de despertador azul, toca no silêncio do meu quarto, fazendo-me saltar da cama. Ensonada, atravesso o corredor e dirijo-me à casa-de-banho, evitando olhar o bolor que dá aos azulejos um tom anilado. (Gostava tanto de ter uma casa-de-banho igual à da Marta!). Olho-me no espelho, agarro nas mãos a água gelada que levo à cara na esperança de tentar disfarçar a bofetada que o meu pai me deu ontem. (Gostava tanto que o meu pai fosse como o pai da Marta!). Regresso ao quarto e fico parada a olhar para o armário da roupa, sem saber o que vestir. E tudo tão velho e tão fora de moda! (Por que não posso eu ter a roupa da Marta?). Agarro numas calças de ganga, que já foram não sei de quem, e numa T-shirt que, apesar das inúmeras lavagens, continua em forma de T (por isso se chama T-shirt, segundo a minha professora de inglês).
São 6.25h, bolas! Estou atrasada. E o pequeno-almoço? Bah! Não faz mal, quando chegar à escola bebo água para encher o estômago. Além disso, não posso fazer barulho e corro o risco de sair de casa com outra bofetada. (Gostava tanto que a minha mãe fosse como a mãe da Marta!).
Entro no autocarro e sento-me num dos três bancos livres. Podia sentar-me ao lado da Isabel, mas ela, ao ver-me entrar, rapidamente tirou o blusão de ganga que levava ao colo o colocou-o no lugar ao lado. Fingi que não percebi e sentei-me atrás dela. (Se eu fosse a Marta, a Isabel receber-me-ia com um sorriso).
São 9.30h. Corro para a sala de aula e sento-me na minha carteira que no fundo da sala, está assinalada com o meu nome em várias cores. (A da Marta é à frente). A professora entra, coloca os livros sobre a mesa e sorri (para a Marta, é claro!). Voo por entre planetas, galáxias e acaricio com a minha mão as figuras coloridas de outros mundos que enchem a página do livro. (Será que nesses mundos há pais como os meus, ou serão todos iguais aos da Marta?). "Estás sempre distraída, Amparo! Assim hás-de ir longe!" (Marta é um nome tão bonito!). Com um salto, desço da Ursa Menor e regresso à minha cadeira. Bolas! Quando sei as coisas nunca me pergunta nada; mas quando não sei, parece que adivinho. Será que também consegue adivinhar se este ano o Natal vem a minha casa?
São 10.15h. A campainha toca e todos saem a correr. Todos, menos eu. Quero aproveitar ao máximo a segurança deste espaço porque sei que lá fora todos se afastam de mim.
(Ah! Quem me dera ser a Marta!).